Simplesmente Lu

Junho 07 2005

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Este foi meu primeiro artigo, resultado da disciplina Laboratório de Redação Jornalística e publicado, em 2003, no site do Centro de Letras e Artes da UFPA: www.ufpa.br/cla/jornal/edicoes_anteriores/2003/10_11_12/artigos/mangueiras_bailarinas.htm Com algumas ressalvas, o texto ainda é bem atual. Espero que curtam, especialmente minhas amiguinhas bailarinas, que de vez em quando dão uns "giros" por aqui.

 

MANGUEIRAS BAILARINAS

“Tudo nesta cidade onde nasci é parte poderosa, eloqüente na minha vida. Paisagens, personagens, ocorrências (...)”. O amor da escritora Eneida de Moraes pela terra onde nasceu, Belém do Pará, foi bem expressado em Banho de Cheiro. Os traços da mista colonização de Belém, cidade de tantos ritmos, lendas e cantares, influenciaram diretamente na peculiaridade de sua música e dança. Grande representante da cultura local, a dança folclórica do Pará, entretanto, carece de um tratamento adequado por parte dos órgãos públicos, já que uma linha tênue é a que separa o processo natural de modernização da cultura de sua massificação.

 

A descaracterização da dança folclórica paraense favorece sua estilização assim como a ação de produtores culturais despreocupados com a preservação desta arte. As coreografias, vestimentas e músicas que compõem nossas danças, como o carimbó e o lundu, retratam o jeito de ser e de viver do nativo. O movimento do corpo dos dançarinos mostra as características da nossa gente.

 

O carimbó, com seus passos embalados pelo gingado harmônico dos quadris das dançarinas, destaca a brejeirice das moças da terra. Já o lundu é o puro encantamento dos enamorados: a sexualidade à flor da pele e o cheiro desse Pará quente e úmido, espelhado na malícia dos movimentos desta arte identificadora de nossa cultura.

 

Rosaly Brito, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), define cultura como a ação simbolizadora do homem. A dança folclórica, representante da cultural regional, portanto, de acordo com a professora, está sujeita à “criação e atualização permanentes, inerentes aos sistemas simbólicos de significação do próprio homem”. Estando a cultura ligada intrinsecamente às formas de poder vigentes, percebe-se então que os fatores políticos e sociais envolvidos no fazer artístico-cultural são determinantes no seu processo de modernização.

 

O escritor paraense Benedicto Monteiro destacou recentemente “que está bem na hora de nós divulgarmos e valorizarmos os nossos ritmos”. Esta é, de fato, uma necessidade urgente, mas é necessário que se atente para a apropriação inadequada da cultura popular. Muitos grupos folclóricos do Estado, por exemplo, saem para festivais nacionais e internacionais, recebem prêmios e elogios mas, ao voltar, continuam sem estrutura suficiente para manter a qualidade de suas apresentações. São artistas que não conseguem sobreviver de sua arte, o que favorece a descaracterização.

 

A política cultural do Estado, de acordo com o exemplo anterior, deveria ser repensada. Os artistas poderiam mesmo receber investimentos para se manter, como acontece com grupos franceses de dança contemporânea. Da mesma forma que grandes monumentos locais são construídos, restaurados e tratados, fazendo esta injusta comparação, nossos artistas deveriam ser mais valorizados. Será que é tão complicado para o Estado manter um artista-funcionário-público?!

 

Algumas ações que já existem apontam um bom caminho a seguir, como as bolsas de pesquisa e cursos de aprimoramento artístico, ofertados pelo Instituto de Artes do Pará (IAP), mantido pelo governo estadual. Elas oferecem subsídios e facilitam o acesso à informação resultando no lapidamento dos trabalhos artísticos e na preservação do folclore regional. Num destes cursos, divulgou-se uma pesquisa que resgata e registra em vídeo o lundu. Com a ajuda dos mestres desta dança, os movimentos e a forte sensualidade do lundu estão sendo retomados.

 

A prefeitura e o governo estadual têm anunciado outros projetos culturais, o que alegra a classe artística, já que as danças acadêmica e popular sempre foram pouco favorecidas em governos anteriores. O Ballet Folclórico de Belém, grupo criado, há cerca de seis anos, pela prefeitura municipal, há pouco tempo foi reestruturado e ampliado, o que significa um grande passo para o profissionalismo da área.

 

A Fundação Tancredo Neves, estadual, também tem desenvolvido projetos de pesquisa e montagem de espetáculos de dança - acadêmica e folclórica. Os projetos envolvem grupos diversificados, desde as companhias de dança clássica até as quadrilhas juninas. Merece destaque ainda o trabalho da UFPA que, através da Escola de Teatro e Dança, está interiorizando o ensino teórico e prático das artes. São enviados professores para alguns municípios do Pará, destacados com o intuito de ensinar e reciclar o artista paraense.

 

Já o Teatro Waldemar Henrique, atualmente sob a gerência de Sonia Massoud, pretende continuar abrindo espaço para a cultura popular, sempre mantendo o seu caráter experimental, seja na estrutura ou na administração do espaço. “Das danças folclóricas, cordões de pássaros aos clássicos, o teatro estará sempre de portas abertas”, diz a coreógrafa Sonia, que também é professora de Educação Física.

 

Estas ações poderiam ser ainda mais abrangentes, com investimentos também na especialização dos professores de Educação Física, do curso mantido pela Universidade Estadual do Pará (UEPA). Essa é uma questão fundamental, já que são esses profissionais que trabalham a dança folclórica nas escolas de ensino médio.

 

A dança paraense fascina o estrangeiro com seu ritmo, riqueza coreográfica e vestimentas exóticas. Fala com gestos e movimentos, através do charme dos dançarinos, das tradições e crenças populares de nosso povo. Merece ser divulgada sim, mas para realçar o valor da cultura regional para o turismo e a economia do Estado. Desta forma, não será descaracterizada para fazer sucesso lá fora, como aconteceu com a lambada e recentemente com o brega.

 

O cheiro cheiroso do eternizado “Banho” de Eneida vai continuar transbordando a exuberância de nossa dança: “E as mangueiras encarregando-se de dar sombra, faceiras sempre, tão faceiras que adoravam a chegada do outono, quando a Prefeitura manda pintar de branco seus troncos. Sempre desejaram ser bailarinas as nossas mangueiras (...)”.

 

SOBRE OS COMENTÁRIOS
Hum... o poético Raul fez o maior sucesso por aqui.
Orlando, que bom que veio me visitar. Deixei meu e-mail lá no seu blog. Teremos sempre muito o que conversar. Tem um ditado que eu inventei (plagiei) que é assim: Quando um jornalista fala, o outro cala. Então vamos nos conhecer melhor nas falas e pausas. Agradeço a disponibilidade.
Net, é linda mesmo, como vc.
Lianne, também achei belíssimo. Quero as dicas esotéricas. Assim que aprender, poderei adicionar os endereços que puder me indicar.
Louise, ganhei mesmo: dias e noites...
Oi Alan. Tomara que a Net continue aturando esses jornalistas "chatos" que ficam torcendo por ela. Nos falamos melhor por e-mail. Valeu por ter vindo aqui.
Silvia, não sou poderosa não, rsrsrs. Também fiquei emocionada. Demais, não é?!
Milene, pode vir, as portas estão abertas.
Beijos a todos!!!
Lu.

publicado por Luciane Barros Fiuza de Mello às 08:08

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