Simplesmente Lu

Setembro 10 2009
 

PS: Nas fotos, momentos de uma conversa-entrevista muito agradável que a doutora Clara Pandolfo, grande conhecedora da problemática amazônica,concedeu, no início do ano, ao jornalista Lúcio Flávio, a qual eu tive a satisfação de presenciar e registrar.

 

Post original: http://simplesmentelu.blogs.sapo.pt/33100.html

 

À MESTRA.

 

Demorei para escrever sobre ela, que nos deixou no dia 31 de julho, com quase cem anos, lúcida, esbanjando inteligência, preocupada com a família e ainda indignando-se com o tratamento que a Amazônia tem recebido de seus filhos. Dona Clara Pandolfo foi uma grande mulher, como a jornalista Ana Diniz bem descreve no texto reproduzido abaixo, e como o Lúcio Flávio Pinto também o fez no seu Jornal Pessoal. Ela foi a primeira química do Pará, desenvolvendo, posteriormente, projetos de manejo sustentável e trabalhando em prol da Amazônia.

 

O título do post faz referência à maneira como seus opositores gostavam, ironicamente, de chamá-la. Ironicamente, também, é a voz dela, que, mesmo distante há décadas da  imprensa e das atividades profissionais, ainda ecoa, forte e definitiva. No fundo, penso que ela sabia do seu valor, mas não ligava para reconhecimento. Tanto que, entre os 12 documentos que elegeu como os que mais lhe alegraram, poucos eram premiações, mas, sim, singelas homenagens, como uma trova recebida de uma pessoa da platéia em uma de suas palestras e uma matéria escrita pelo jornalista Lúcio Flávio. 

 

Era uma grande pessoa, a dona Clara. Uma figura indescritível. Acho que demorei para falar dela porque ando meio chateada com o que tem acontecido por estas bandas. Eu não consigo aceitar bem que pessoas tão capazes, tão incríveis, nos deixem assim... Este ano sofremos com a ida do talentosíssimo Walter Bandeira e sua voz encantadora. Depois ficamos órfãos também da inteligência e capacidade do economista Juvêncio de Arruda, blogueiro que nos brindava diariamente com suas críticas, análises e bom humor. E, semana passada, quem partiu foi o jornalista Raimundo Pinto, grande conhecedor da Amazônia e referência na área. Acredito que a missão deles tenha continuidade lá em cima, para onde foram convocados, mas não me conformo destas pessoas, simplesmente, se calarem e partirem.

 

Dona Clara era de uma sagacidade incrível e sua memória era um fenômeno. Meu parentesco com ela era distante. Sua filha, Lúcia Pandolfo (foto abaixo), é minha madrinha de batismo e foi casada com meu tio, Beré, irmão do meu pai. Todo ano eu tinha o prazer de encontrá-la, quase sempre no Natal, quando a tia Lúcia estava por aqui. Apesar da dificuldade auditiva, a conversa com ela era sempre gratificante e enriquecedora. Um momento que também não esqueço foi quando acompanhei Lúcio na entrevista que ele fez com Clara Pandolfo em 2007, a última que ela concedeu. Nesse dia, a mestra estava tão feliz com a nossa visita que falou por quase uma hora, sem cansar. Tenho tudo registrado, em áudio e em fotos. 

 

Clara Pandolfo lembra minha avó, Orlandina Fiuza de Mello, que tinha a mesma vivacidade e sabedoria, só não trilhou um caminho profissional como o dela, dedicando-se mais aos trabalhos domésticos, mas sempre preocupada com o bem estar dos outros. A minha avó também trabalhou como costureira por um tempo para ajudar a garantir o sustento da família. Foram mulheres especiais, mulheres inesquecíveis.

 

Estou colaborando com a pesquisa do meu primo, Murilo Pandolfo Fiuza de Mello, que iniciou, ano passado, o projeto de escrever um livro sobre a trajetória da avó. Admiro a tenacidade do Murilo e seu empenho, que com toda a certeza resultarão em um belo livro. A pesquisa tem dado trabalho para ele, mas tem compensado em dobro. A cada passo, descobrimos novas facetas da química e estudiosa da Amazônia.

 

Dona Clara ainda vai nos surpreender muito, pois seu pensamento era visionário e sua voz era potente. Tão alta que ainda será ouvida por muito tempo: ecoará e conscientizará gerações, eternamente.

 

Com carinho, à mestra.

 

Luciane Fiuza.  

Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

 Clara, a paraense

 
Clara Martins tinha 19 anos quando ingressou no mundo científico, ao lado de, nada mais, nada menos, Paul Le Cointe. Ela estudava na Escola de Chimica Industrial, fundada em 1910 e fechada em 1931. Sua presença no primeiro e único boletim da Escola de Chimica, publicado em 1929, é como colaboradora de Le Cointe, líder da equipe francesa que tocava a escola, numa contribuição ao estudo químico das plantas amazônicas.

(Eu penso no que Clara deve ter enfrentado para entrar nessa escola, uma adolescente de dezesseis anos... a ciência era, nos anos 20 do século XX, um reduto masculino; creio que o fato de ter uma inteligência extraordinária a ajudou; mesmo assim, numa época em que o destino feminino vinha traçado do berço, estudar química industrial, com cientistas franceses – devia ser demais para a província!)

Dois anos depois daquela estréia, a escola era fechada por Getúlio Vargas.

Mas Clara tinha adquirido uma paixão, definitiva: a Amazônia.

Vinte e cinco anos depois, Clara conseguia sua reabertura. Ela já se chamava Clara Pandolfo, e já obtivera sua primeira parcela significativa de poder: estava na SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, a antecessora da SUDAM), e havia otimismo – e dinheiro – em relação às coisas regionais. A Escola, agora, era escrita com “qu” e mantida pela Associação Comercial do Pará e SPVEA. A Escola de Química Industrial continua até hoje, transformada em Faculdade, dentro da Universidade Federal do Pará.

(Penso no que Clara faria hoje, ao ver o “seu” curso de química como um dos quatro piores do Brasil... Ah, não ficaria por isso mesmo!).

Nada mais tivesse feito Clara e isso já seria suficiente para garantir-lhe um espaço considerável na história da ciência paraense. Só que Clara era maior, muito maior: movida pela paixão desenvolvida com Le Cointe, tornou-se uma das maiores autoridades em Amazônia no século XX. Centenas de trabalhos e alguns livros refletem seu pensamento e sua participação.

Sim, porque Clara jamais foi omissa. Solidamente ancorada em ciência e técnica, foi uma militante que compareceu a milhares de eventos, escreveu dezenas de artigos, debateu, reuniu, lutou e interferiu politicamente onde quer que estivesse.

Era de uma lucidez impressionante o que, ao lado de uma inteligência extraordinária, lhe dava um senso crítico capaz de perceber conseqüências de longo e médio prazo com extrema rapidez.

(Eu penso em Clara enfrentando a aceleração tecnológica, que a alcançou depois dos 50 anos. Olhando os computadores e extasiada diante das telas que lhe mostram o que só imaginava através do estudo dos livros. Lutando com a velocidade, tentando compreender, observando a rápida mudança nos costumes, na tecnologia...).

Sua militância, é claro, foi ultrapassada: militâncias são efêmeras e circunstanciais. Seu pensamento, entretanto, fica. E muito do que disse dói, dói fundo numa certa elite e numa certa esquerda. Talvez por isso os comentários sobre sua morte são raros e esparsos; talvez por isso as pessoas esqueçam que Clara foi uma pioneira na ocupação de espaços intelectuais pelas mulheres paraenses; foi uma intransigente defensora da Amazônia; foi uma realizadora; foi uma servidora pública exemplar. Honrou seu mestre, sua família e sua geração.

Mais: gostem ou não, suas palavras ficam. Como estas, que escreveu em 1956, aos 44 anos, num trabalho vencedor de um concurso promovido pelo jornal “Folha do Norte”:

“Uma exploração florestal bem dirigida estará forçosamente jungida à necessidade de desenvolver programas de reflorestamento. A indústria madeireira que não providencie a reposição da cobertura florestal da área desmatada, será obrigada a ir buscar a distâncias cada vez maiores a madeira para seu suprimento, acarretando custos operacionais cada vez mais elevados”.

Simples assim. E ainda crítico, há meio século...
 
  
PS:
Texto reproduzido do blog da jornalista Ana Diniz, "Na rede", que pode ser lido originalmente no link http://amdiniz.blogspot.com/2009/09/clara-paraense.html
 
O blog do Espaço Aberto, do jornalista Paulo Bermegui,  também reproduziu o belo texto: http://blogdoespacoaberto.blogspot.com/2009/09/clara-paraense.html
 
Fiz uma referência à Dona Clara Pandolfo neste post abaixo, em homenagem ao dia das mulheres:
 
Domingo, 8 de Março de 2009
 
8 de março: porque hoje também é nosso dia.

Clara Pandolfo e Lúcia Pandolfo

 

Um exemplo de mulher e profissional, a super Clara Pandolfo, que dispensa apresentações, ao lado da filha, Lúcia Pandolfo, minha madrinha querida.

 

publicado por Luciane Barros Fiuza de Mello às 13:08

Setembro 04 2009
Foto: David Alves/Agência Pará
 

4/9/2009 00:42

Da Redação

Agência Pará

 

O jornalista paraense Raimundo José de Faria Pinto, 56 anos, faleceu na noite desta quinta-feira (3), em um hospital de Belém, vítima de câncer. Nascido em Santarém, Raimundo Pinto foi um dos mais importantes jornalistas de sua geração. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Pará, eleito em 1992. Nos últimos anos, era editor do site Pará Negócios, voltado à cobertura de assuntos econômicos, sociais e políticos na Amazônia.

 

Ao reconhecer a importância e a seriedade do trabalho realizado pelo jornalista em 38 anos de plena atividade, o Governo do Pará manifesta seu profundo pesar à família, amigos e admiradores de Raimundo José.

 

A paixão pela reportagem, vivenciada em vários jornais do país, foi a grande motivação de uma carreira iniciada em 1971, no jornal "A Província do Pará", na época um dos mais importantes do Estado. De 1975 a 1993 foi correspondente em Belém dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde", e da revista "Visão" a partir de 1978.

 

Trabalhou como repórter do jornal "O Liberal" em 1976. Foi repórter e editor do jornal "O Estado do Pará", no período de 1977 a 1980, e editor do jornal alternativo "Bandeira 3". Trabalhou como repórter e editor da Sucursal do jornal "Gazeta Mercantil" em Belém, de 1996 a 2004. Como assessor de imprensa, atuou na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de 1981 a 1989, e na assessoria de comunicação do Governo do Pará em dois períodos - de 1995 a 1996 e de 2003 a 2004.

 

A larga experiência no mundo da reportagem Raimundo registrou no livro "Repórter", editado em 1995. Também foi co-autor dos livros "Panará - a volta dos índios gigantes", publicado em 1997 pelo Instituto Socioambiental, e "O Novo Brasil", editado em 2002 pela Editora Nobel.

 

O trabalho de Raimundo José Pinto alcançou reconhecimento nacional com o Prêmio Esso de Jornalismo, que ele ganhou em 1976 pelo jornal "O Estado de S. Paulo", e quando recebeu Menção Honrosa do Prêmio Esso em 1977 pela série de reportagens "Amazônia, a ocupação ilegal", também publicada no "Estadão". No Pará, Raimundo ganhou o Prêmio Aimex de Jornalismo em 2003, 2004 e 2005.

 

Raimundo Pinto era casado com a jornalista Sílvia Sales e tinha três filhos.

 

Texto: Secom (Secretaria de Estado de Comunicação)

 

Fonte: http://www.agenciapara.com.br/exibe_noticias_new.asp?id_ver=50476

 

publicado por Luciane Barros Fiuza de Mello às 16:09

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